Eu sabia muito bem que uma viagem desse gênero exigiria que eu deixasse de lado certos preconceitos e o apego a pequenos confortos cotidianos. Não se tratava de Europa ou de Estados Unidos; nos países que eu iria visitar, as coisas funcionavam de modos e em ritmos peculiares. Tudo era lento, complicado, pouco confiável. Nos grandes centros, a infraestrutura turística até poderia ser quase satisfatória mas, fora deles, viajar por conta própria demandaria algum savoir-faire.
Levamos cerca de três meses para chegar ao Nepal. No caminho, depois de atravessarmos a Europa, passamos pela Turquia, pelo Irã, pelo Afeganistão, pelo Paquistão e pela Índia. Em razão de guerras, conflitos e insurreições, uma viagem como essa seria hoje praticamente impossível. Infelizmente, é como se o mundo tivesse ficado menor.
Embora neste livro eu fale sobre minhas viagens por diversos países, preferi, talvez por razões afetivas, dar destaque à Índia e ao Nepal, países em que estive muitas vezes. Neles, fiz amigos, conheci cidades e aldeias, opulência e miséria; vi à minha frente, e não em livros, como são ao mesmo tempo tão diferentes e tão iguais, em qualquer lugar, as necessidades e os sonhos do homem; e modifiquei para sempre meus conceitos juvenis sobre a vida, a morte e a felicidade.
(Extrato do capítulo introdutório do livro A Vaca na Estrada, de Lucio Martins Rodrigues, que será lançado em breve pela Editora Conteúdo.)
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