domingo, 9 de maio de 2010

De Paris a Katmandu de carro


A mais marcante de minhas viagens ao Oriente, talvez de toda minha vida, foi a primeira delas, na segunda metade da década de 1970. De mochila nas costas, viajei pelo sul da Europa e pelo norte da África. Depois dei um tempo em Paris, onde fui convidado por Bernard, um amigo francês, para seguir com ele em seu pequeno automóvel Renault 4 L até Katmandu, no Nepal.Ir da França ao Nepal de carro! A ideia simplesmente me hipnotizava. Dei um longo assobio… Tratava-se de uma mega-aventura: meses de estrada, percorrendo países distantes e exóticos, em um carrinho que parecia funcionar bem em Paris, mas era básico e não tão novo. Era recém-formado. Quando me engajasse seriamente na profissão não poderia encarar uma experiência dessas. Existem coisas que só se faz uma vez na vida. Era pegar ou largar.
Eu sabia muito bem que uma viagem desse gênero exigiria que eu deixasse de lado certos preconceitos e o apego a pequenos confortos cotidianos. Não se tratava de Europa ou de Estados Unidos; nos países que eu iria visitar, as coisas funcionavam de modos e em ritmos peculiares. Tudo era lento, complicado, pouco confiável. Nos grandes centros, a infraestrutura turística até poderia ser quase satisfatória mas, fora deles, viajar por conta própria demandaria algum savoir-faire.


Levamos cerca de três meses para chegar ao Nepal. No caminho, depois de atravessarmos a Europa, passamos pela Turquia, pelo Irã, pelo Afeganistão, pelo Paquistão e pela Índia. Em razão de guerras, conflitos e insurreições, uma viagem como essa seria hoje praticamente impossível. Infelizmente, é como se o mundo tivesse ficado menor.
Embora neste livro eu fale sobre minhas viagens por diversos países, preferi, talvez por razões afetivas, dar destaque à Índia e ao Nepal, países em que estive muitas vezes. Neles, fiz amigos, conheci cidades e aldeias, opulência e miséria; vi à minha frente, e não em livros, como são ao mesmo tempo tão diferentes e tão iguais, em qualquer lugar, as necessidades e os sonhos do homem; e modifiquei para sempre meus conceitos juvenis sobre a vida, a morte e a felicidade.

(Extrato do capítulo introdutório do livro A Vaca na Estrada, de Lucio Martins Rodrigues, que será lançado em breve pela Editora Conteúdo.)

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